segunda-feira, 14 de junho de 2010

A azeitona da empada

Eu odeio azeitonas! Simplesmente odeio! Não vejo o porquê deste legume, verdura, fruto, fruta, semente, galho, folha, seja lá a sua classificação, existir. Na verdade, nem sei se é a azeitona ou o azeitona, mas enfim, a questão é que eu odeio azeitonas.
Você já parou para pensar a origem da azeitona? Estás acostumado a vê-la imersa num líquido gosmento dentro de um vidrinho com uma tampa muito difícil de abrir. Mas como será que ela vem ao mundo? Seria em cachos como a uva? Solitária como uma maçã? Ficaria presa aos galhos como a jaboticaba ou enterrada como a cenoura? Uma seca ou chuva torrencial comprometem a safra da soja, do milho, do arroz, porém, nunca se teve notícia da colheita da azeitona ficar prejudicada por condições climáticas adversas. Ninguém, nunca viu um pé de azeitona e se viu, nunca contou, nunca foi motivo de debate entre amigos num bar, ou assunto do Globo Reporter, simplesmente porque a azeitona é insignificante...Ou melhor, ela tem uma função sim: contaminar a tua refeição. Vai dizer, não interessa se você pediu um pastel de frango com catupiry ou uma pizza de calabresa, se a azeitona está presente ela tem o poder de deixar todo o pastel, pizza, sei lá, com sabor de.....AZEITONA! É isso que ela faz, ela invade teus canais degustativos e te deixa com o paladar de azeitona! Mesmo que a tua mordida não tenha sido certeira, a região adjacente ao elipsóide verdinho encontra-se embriagada pelo seu gosto.
Ela é tão secundária que não se tem notícias de seus benefícios. Você já ouviu em algum lugar que a azeitona previne câncer de próstata, ajuda na pele ou é bom pra vista?
A azeitona é na verdade, o fruto da oliveira. Ela é tão desprezada que, quando degustada diretamente se chama azeitona, mas quando falamos no azeite, ela se torna oliva. Hei, acorda, azeitona e oliva são a mesma coisa, são s-i-n-ô-n-i-m-o-s, trata-se do mesmo fruto. O azeite de oliva poderia muito bem se chamar azeite de azeitona , mas certamente se o fizessem, o azeite de oliva não seria tão popzinho no universo gastronômico.
Este fruto é formado por uma casca verde (ou preta) que protege um caroço que deve corresponder a 60% do volume total da criatura. Não por experiência própria, mas a arte de comer a azeitona é notável. Se você der uma mordida suave, corre o risco de não romper a sua primeira camada. Se a mordedura for mais violenta os dentes colidem ferozmente com o inexorável, impenetrável caroço e as consequências podem ser desastrosas. Sendo assim, a dentada deve ser na medida certa, visando cortar a azeitona, separando-a do caroço. Agora, como se livrar do caroço? Certamente deve existir uma regra de etiqueta para isso! Uns fingem que vão tossir, levando a mão à boca e recolhendo-o discretamente (se fores comer muitas olivas esta técnica não é aconselhável, pois as demais pessoas podem pensar que a tosse é uma reação adversa da azeitona ou ainda, acharem que você engasgou, correndo o risco de receber tapões nas costas ou aquele típico abraço por trás onde os braços ficam posicionados na altura da barriga e você é erguido em intervalos regulares...de uma forma ou de outra, parece constrangedor...).Outros utilizam o guardanapo ou um talher e o expelem discretamente. Os grossos já colocam os dedões lá no meio da goela, retiram o caroço, olham com orgulho para ele e dizem: -"Bah, esse era dos grandes!". Definitivamente, o caroço da azeitona não passa desapercebido. Tanto é verdade que belos utensílios domésticos são projetados especificamente para este fim (vai dizer que os recipientes da figura não combinam muito com as cortinas da tua sala!). Para amenizar o desconforto que o caroço pode propiciar é possível encontrar azeitonas sem ele. Para tanto ele é substituído por um recheio vermelho que eu não faço a mínima ideia do que se trata (até porque, as lamentáveis vezes que senti o gosto da azeitona foram misturadas a algum molho, recheio, etc....).
Enfim, a azeitona é quase uma cereja salgada. É claro que a cereja é vermelhinha, mais bonitinha, toda glamourosa, ao passo que a azeitona tem uma aparência primitiva...O fato é que elas já contaminaram muitas das minhas refeições... Várias vezes fui sorridente dar uma primeira mordida naquele lanche que parecia delicioso e senti apenas o gosto de azeitonas...ECA! azeitonas....Eu odeio azeitonas, por isso, da próxima vez que lhe disserem "você é a azeitona da minha empada", talvez isso não seja um elogio....

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ampelmann e seus amiguinhos


Elas estão por toda parte. Nas grandes cidades tu as encontra em cada esquina, seja para controlar o trânsito de veículos, pedestres, bicicletas ou animais de estimação. As sinaleiras (e pelo bairrismo me recuso a chamar de sinal, semáforo, luzinha, etc.) ora verde, ora vermelha, transpõem sua soberania independente de quem esteja atrás do volante...Não fica nervosa com buzinaços e quem resolve desobedecê-la sabe muito bem dos riscos que corre. Ela fica lá, imovél, vendo, literalmente, o trânsito passar. As de New York são clássicas, as de Amsterdam atendem não apenas automóveis. As de Montevideo dão recadinhos ou sorrisos marotos... A de Porto Alegre não tem bonequinhos vermelhos e sim uma imponente mão espalmada...Mundo afora, as sinaleiras são muito mais que um "PARE" ou um "SIGA", elas acabam revelando um pouco da cultura da região. Ampelmann, o homenzinho da sinaleira da Berlim oriental, é um charme à parte, símbolo da "nostalgia do leste", virou marca de produtos alusivos à cultura berlinense comunista e movimentou 6 milhões de euros no ano passado (http://www.ampelmann.de/). Enfim, elas são funcionais e da próxima vez que o sinal verde demorar a chegar, relaxa, afinal, elas fazem parte do teu cotidiano, ou do cotidiano de alguém.....

Uruguaia sorrindo....


Montevideo: protege tu cerebro


Valparaíso: charmosas...


Praga:ops, acho que tava vermelho....



Porto Alegre: Uma baita sinaleira, tchê!



Porto Alegre e sua mão imponente....



Budapeste, sei que a ponte chama mais a atenção....



Dinamarca: Dá medo não obedecer o sinal....



Ampelmann: Muito simpático....



Bélgica a dois....


Barcelona, nada de Gaudi...


Amsterdam para ciclistas.....



Paris: poderia ser uma sinaleira mais metida....

Sobre o cotidiano hermético

Sempre me interessei pelo cotidiano, na verdade, penso que o dia-a-dia tem seu encanto e vejo muita magia e charme nas ruas por onde passo, nas placas que eu leio, nos prédios antigos, nos aposentados jogando damas na praça. Acho que elas revelam muito da cultura de um certo lugar... Muitas pessoas reclamam da rotina, mas o fato é que as coisas na vida são feitas de rotinas, apenas com periodicidades diferentes... Existem as rotinas diárias, como almoço, trabalho; as rotinas semanais, como o jantar de sábado à noite ou o futebolzinho com os amigos; as rotinas mensais como o dia de pagar a prestação do Magazine Luiza. As rotinas anuais como comer lentilha no ano novo (sim, acreditem, tem gente que come lentilha só no dia 31 de dezembro!). Existem algumas rotinas que tem uma periodicidade tão pequena, mas tão pequena, que por demorarem tanto a se repetirem, achamos que se trata de um momento único, seja ele uma final incrível de campeonato, um gol de placa, um cometa que passa, a guria que vinha cheia de sacolas e tu seguraste a porta do elevador, um beijo que deixa as pernas bambas...


Apesar de registrarmos em nossa memória as grandes epopeias que vivemos, são os momentos do cotidiano que sentimos falta.. A falta de poder ser um adolescente com poucas preocupações (talvez a maior delas seja, para um CDF, ter duas provas num mesmo dia, para as gurias, sair uma espinha no nariz no dia da tão esperada festa...). Quando estamos longe de casa sentimos saudade da comidinha da mamãe, quando voltamos de uma viagem e começamos a relembrá-la, não é a Torre Eiffel ou o Coliseu que dá saudade, e sim aquelas ruelas perdidas por onde andamos, o frio característico daquela pequena cidade, uma cerveja degustada na temperatura certa, os metrôs, o cheiro dos nativos, seus costumes, enfim, as peculiaridades do cotidiano de cada cidade...


Nunca pensei em escrever alguma coisa, muito menos em divulgar em algum lugar (tá certo que tirando os membros da família e alguns amigos, este blog ficará no anonimato). O fato é que pela minha formação acadêmica, escrever nunca foi algo muito apreciado. Admito que comecei a tomar gosto pela coisa quando tive que pensar em alguns discursos de formatura...comecei a achar esta tarefa nada árdua, pelo contrário, me dava prazer...Hoje, as pessoas se preocupam muito em fazer alguma coisa que alavanque sua carreira profissional, dê bons dividendos, enfim que leve ao sucesso, mesmo não tendo bem certeza de onde ele está...Esta não é minha ambição, estou escrevendo por prazer, até porque tenho convicção que não escrevo tão mal a ponto de ser entrevistado pelo Jô Soares, nem tão bem para merecer uma coluna na Folha de São Paulo..Faço por diversão, sem me estressar, sem me preocupar com os erros de português, afinal, se for começar a esquentar a cabeça com as postagens, elas deixarão de serem divertidas e prazerosas para mim e acabarão perdendo o sentido....


Sempre gostei de fotografia, vou me arriscar a divulgar algumas registradas por mim, mas já aviso que as fotos não são boas, pois o meu gosto por esta arte supera muito a minha competência fotografística...De qualquer forma elas estão aí, para tentar mostrar, associadas aos textos, que uma paçoca de amendoim, uma placa de trânsito, uma guria atravessando a rua tem o seu charme. Que ficar com os dedos murchos após um longo banho de piscina é uma experiência singular...Ademais, gosto muito de viajar e também pretendo retratar o cotidiano das cidades por onde passei, mostrar ruas e não monumentos, pessoas e não museus. Gosto de clicar as especificidades de cada lugar, enfim detalhes que passam desapercebidos por aqueles turistas clássicos que quando chegam num ponto turístico já estão preocupados com o próximo a visitar, sem nem "digerirem" o que está na frente de seus olhos...muitas vezes se tem muito mais beleza no "ir e vir" do que no propriamente "chegar".
Em suma é isso, o cotidiano hermético explora a efervescência do diário, ele tem um olhar descompromissado, mostra o "lado B" do que vemos por aí, das coisas do nosso cotidiano ou do cotidiano de outras cidades, as generalizações e as peculiaridade, os antagônicos e os complementares do dia-a-dia. Enfim, trata-se de ver com carinho o nosso mundo diário, que, por estar sempre aí, bem pertinho, dia após dia, deixa de nos surpreender com sua beleza ímpar, funcional e simples...